Arte na Comunidade – Comemorações Mês da Saúde Mental

Arte na Comunidade é uma iniciativa do Centro de Apoio Social do Pisão - Misericórdia de Cascais, que conta com o apoio da Câmara Municipal de Cascais, desenvolvida no âmbito das celebrações do Mês da Saúde Mental.

Fernão Cruz, Ana Baleia, Susana Cereja e Vitor Serrano deram corpo a quatro instalações artísticas, em conjunto com os artistas do Centro. O percurso artístico será inaugurado dia 15 de outubro, na Casa Sommer, e tem início no Parque Marechal Carmona, estendendo-se até ao Largo da Assunção, à Estação Ferroviária de Cascais e, ainda, ao Túnel de ligação entre o Parque Palmela e o Paredão.
Mas a Arte/o percurso não se fica por aqui: existem mais duas obras em exibição na Galeria do Edifício do Relógio, gerida pela artista parceira Ana Mesquita.
Os visitantes poderão ver, ainda, uma curta-metragem, que consiste numa parceria com o Museu da Música Portuguesa, Casa Verdades de Faria. Esta será exibida no dia 30 de setembro, no Mercado da Vila e dia 15 de outubro, aquando da inauguração. As obras poderão ser vistas até dia 30 de outubro.

Ana Baleia

Ana Baleia (Cascais, 1979) vive e trabalha em São Luís, Odemira. Tendo o design de moda como background, atualmente desenvolve o seu trabalho como artista visual, figurinista e designer, com uma prática artística intrinsecamente ligada ao seu material de eleição: o Têxtil – transversal a todos os seus projetos, com especial foco no uso do desperdício. Tem participado em exposições coletivas e desde 2021 que expões o seu trabalho também individualmente. Colabora como figurinista com várias companhias de teatro, encenadores e coreógrafos. Trabalha frequentemente com a comunidade, nomeadamente com grupos de crianças e grupos sénior, realizando oficinas, peças colaborativas e outras ações. Nos últimos anos, tem realizado diversas residências artísticas onde continua a explorar o uso dos resíduos têxteis e temas relacionados, como a justiça social e ambiental, as memórias associadas à roupa usada e o lado imaterial daquilo que é descartado. É cofundadora da Associação Cultural e Artística Ateneu do Catorze, em São Luís, onde tem o seu atelier.

Curvas e Contracurvas do Pisão

Largo da Assunção, Cascais

Vivi toda a minha infância na freguesia de Alcabideche e passei inúmeras vezes na estrada do Pisão. Este caminho sinuoso separava-me daquele vale e funcionava, ao mesmo tempo, como uma espécie de varanda com vista sobre ele. Sei as curvas e contracurvas desta estrada quase de cor e, no entanto, nunca tinha descido até lá. O projeto Arte na Comunidade criou a oportunidade não só de descer ao vale, mas também de contactar de perto com os residentes deste Centro de Apoio Social.

São pessoas com diferentes histórias e percursos — também eles cheios de curvas e contracurvas — que intervieram com total liberdade na obra, rasgando, cortando, moldando e entrelaçando. Fizeram-no, às vezes, de forma solitária e em silêncio; outras vezes em equipa, mas quase sempre entre sorrisos. Cada participante trabalhou com total autonomia, deixando a sua marca individual no resultado final. Foi, certamente, um processo transformador para ambos os lados: para eles e para mim.

Durante o processo de trabalho, utilizámos roupas que pertenciam à instituição, com a intenção de criar dois “quadros” a partir desse desperdício têxtil, numa espécie de falsas tapeçarias. Estas duas peças formam um díptico: uma foca-se mais nas pessoas, na diversidade, na instabilidade e nas emoções; a outra reflete a envolvente geográfica, a natureza e a paisagem do Pisão. Finalmente, as peças foram colocadas em molduras de ferro, trabalhado de maneira a desenhar o próprio mapa da estrada — as curvas e contracurvas do Pisão.

Fernão Cruz

Fernão Cruz nasceu em Lisboa, em 1995, e é um artista plástico português. Estudou Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. A sua obra inclui pintura, desenho e escultura. Já participou e participa em várias exposições em Portugal e no estrangeiro. O seu trabalho está representado em várias coleções privadas e institucionais.

 

Mesa, Mesa, Mesa

(com e no Centro de Apoio Social do Pisão)

Estação Ferroviária de Cascais

Este projeto propõe a construção de uma escultura composta por três mesas. Cada mesa é distinta, colocando-as em relação, formando uma configuração triangular.

O triângulo é o ponto de partida. É a estrutura mais simples que consegue sustentar-se. Um elemento colapsa. Dois permanecem instáveis. Três criam uma condição mínima de equilíbrio. Não uma estabilidade fixa, mas uma estabilidade negociada – dependente da relação, da distância e da tensão entre as partes.

O projeto é desenvolvido em colaboração com pacientes com psicopatologias do Centro de Apoio Social do Pisão. O processo de trabalho desenrola-se em torno das mesas, entendidas como superfícies partilhadas de ação—lugares onde o pensamento passa diretamente pelo corpo até ao gesto. As mãos, os materiais e os fragmentos acumulam-se.

O uso de papel machê e materiais acessíveis prolonga uma linha já presente no trabalho do artista, onde substâncias frágeis—pasta de papel, tecido, cartão—são transformadas em corpos simultaneamente precários e resistentes. Em trabalhos anteriores, estes materiais deram origem a figuras e ambientes que oscilam entre presença e colapso, frequentemente carregando uma dimensão íntima, quase inconsciente.

O triângulo torna-se assim um dispositivo de coexistência. Uma arquitetura mínima onde a fragilidade não é eliminada, mas partilhada. O que se constrói não é uma forma estável, mas uma situação—algo que só existe através da relação com os outros.

Vitor Serrano

Nasceu em Setúbal nos finais dos anos 80, estudou na Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, vive e trabalha atualmente em Lisboa.
Centra-se na individualidade de género e na singularidade, reveladas através do quotidiano íntimo e do auto-retrato. Em confronto directo com a generalização de subculturas, traça um imaginário clínico e simultaneamente um manifesto plural.
Foca-se na relação entre corpo e espaço: o espaço como pilar do comportamento humano, como condicionante do lugar de cada indivíduo no espaço e sociedade que habita.

Túnel de ligação entre Parque Palmela e Paredão de Cascais

Quando pensamos em Arte e Comunidade a pergunta que surge é: em que momento realmente estamos em colectivo a pensar num propósito comum. O cerne da questão passa por pensar na nossa individualidade para um processo criativo de trabalho colaborativo. Após a primeira experiência no Pisão foi-me claro pensar sobre o outro e pensar na importância de valorizar cada indivíduo na singularidade. A partir daí o trabalho desenvolvido com os utentes foi conduzido no sentido de gerar um sistema criativo que privilegiasse as diversas individualidades. Todos os exercícios propostos foram sempre pensados para que as pessoas fossem autónomas no processo de criação e se sentissem representadas e autoras desse mesmo processo. O projecto final pretende dotar cada um dos participantes de uma ferramenta que possibilite a criação de uma representatividade plástica individual. Deste modo, foi disponibilizada uma câmara fotográfica a cada um dos utentes, a fim de captar imagens representativas de um eu num quotidiano e num contexto de maior veracidade possível.

Susana Cereja

Susana Cereja (Portugal, 1992) apresenta um trabalho multidisciplinar que liberta o ponto de Arraiolos do seu espaço doméstico tradicional, elevando-o a uma escala monumental e afirmando-o no contexto da Arte Contemporânea. Com formação inicial em Arquitetura e Belas Artes, a artista funde e mistura a tapeçaria com outras técnicas, nomeadamente o desenho, a gravura ou a pintura, e materiais contemporâneos como o LED ou o espelho. Explorando temas como a feminilidade, a liberdade e a memória, o seu percurso internacional soma presença em bienais europeias. Em 2025, o seu trabalho destaca-se na ARCO Lisboa, na criação de grandes obras públicas e em projetos comunitários co-criativos.

 

O QUE NÃO VÊS

Parque Marechal Carmona

“O que não vês” nasce de um processo de criação partilhada no Centro de Apoio Social do Pisão e questiona até que ponto o que vemos nos permite conhecer o outro.

Antes das sessões, Susana Cereja pesquisou a história do Pisão e as diferentes realidades das pessoas que iria encontrar. Na primeira sessão levou cores, fios, símbolos e imagens do Jardim Marechal Carmona, perguntando o que os participantes gostariam de encontrar naquele espaço. Uma resposta destacou-se: o Sol.

A luz tornou-se elemento formal e metáfora para tornar visível o que permanece desconhecido. A proposta inicial da artista abriu-se às escolhas, capacidades, memórias e imaginários dos participantes, numa construção progressivamente coletiva.

“Quem me vê?”, “Quem me pergunta?”, “Quem sabe?”, “O que penso?” confrontam-nos com a distância entre ver e conhecer. A obra propõe perguntar antes de concluir, escutar antes de definir e reconhecer aquilo que não se sabe.

Construída em ponto de Arraiolos, a escultura prolonga a investigação da artista sobre a libertação desta técnica do espaço doméstico: abandona o chão, ergue-se e ocupa o espaço público. Também a obra sai do Pisão e entra no Jardim Marechal Carmona, numa passagem simbólica do interior para o exterior, do afastamento para o encontro.

“O que não vês” parte da consciência de que há sempre algo no outro para além do nosso olhar. Talvez seja aí que começa o combate ao estigma: na disponibilidade para conhecer e perguntar. Porque aquilo que vemos nunca é tudo.

Ana Mesquita

Entre Mocuba, em Moçambique, e Cascais, em Portugal, entre o jornalismo e as telas, ana MESQuita construiu uma obra onde nada se descarta — nem memória, nem a matéria, nem a dignidade. Após vinte anos de jornalismo escrito, rádio e televisão, devolveu-se à pintura em 2012. Criou instalações, colagens, vídeo-arte e desenho em iPad que se tornaram na sua linguagem. Da obra Viagem Pelo Esquecimento, exibida no MAAT, ao projecto de galeria Não Descartáveis, série que transforma embalagens reutilizadas em esculturas e peças bidimensionais, a sua prática reflete uma voz política de consciência ambiental e humana, que devolve o valor ao que é dado por perdido.

 

NÃO DESCARTÁVEIS, Nada Nem Ninguém se Descarta

 Documentário

Galeria do Edifício do Relógio

Ao longo dos primeiros cinco meses da exposição, trabalhámos com quase uma dezena de instituições dos Concelhos de Cascais, Sintra, Mafra, Lisboa e Almada — pessoas portadoras de deficiência, pessoas com muita idade, crianças de escolas especiais. Vieram à Galeria do Relógio não como público, nem como visitantes. Vieram ser meus artífices. Criadores por um dia. Cada um deles transformou comigo as embalagens e o cartão numa obra e deixou a sua marca. Porque nada nem ninguém se descarta — e a arte é um dos poucos lugares onde isso se prova. Desta experiência nasceu um documentário, agora concluído, encomenda da RTP2, que regista os nossos encontros e as vidas que os habitam. Um testemunho de que a criatividade não tem fronteiras de idade, capacidade ou condição.

Ana Rita Silva Dias – Serviço Educativo do Museu Música Portuguesa – Casa Verdades de Faria                        

Ana Rita Silva Dias, licenciada em história de ARTE, pós-graduações em Património Imaterial e Arte Terapia e sempre sempre uma aprendiz da dança com muitas formações nunca suficientes para arriscar em mais, enquanto o corpo deixar!

Quase 33 anos de serviço público e por aí fora a tentar…

Beatriz Amado – Realização

Beatriz Silva – Produção

Beatriz Silva nasceu em Lisboa em 1998. Atualmente, reside no concelho de Cascais. Concluiu, em 2023, a Licenciatura em Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. A sua primeira exposição individual – Lugar Interior – foi fruto de um projeto vencedor da Bolsa de Promoção de Talento Cascais Jovem 2023/24. Nesse mesmo ano, abraçou um novo projeto no Centro de Apoio Social do Pisão, no qual se mantém até aos dias de hoje, desempenhando a função de Técnica Superior de Artes Plásticas.

Paisagens Humanas, Movimentos Sonoros

O projeto Museu Fora de Portas nasceu através de uma colega que se dedicou durante vários anos a ir a Instituições Sénior, com um programa baseado na promoção do museu, na vertente da sua História das Artes e Arquitetura.

Posteriormente, a equipa atual dos serviços Educativos do MMP (museu M Portuguesa) foi convidada para as sessões na Ala Pediátrica do Hospital de Reabilitação de Alcoitão, mas na vertente da Música e dos Sons – Fora da caixa, dado que no Museu fazemos a maleta Pedagógica de onde saem diversos instrumentos musicais, uma realidade de Surpresas didáticas e sonoras, mas que seria impensável de levar a Instituições devido ao Peso da maleta e quantidade de instrumentos.

Fomos literalmente de malas e cestos às costas viajar com os primeiros ensaios sonoros em instituições que privilegiamos serem com públicos sem a possibilidade de se deslocarem.  Fomos acompanhados de dois músicos, que nos ofereceram muitas músicas cantadas e, claro, que enriqueceram os corredores do Hospital, e as Instituições com salas de Seniores.

O nome surgiu em 2024/25, o projeto já tinha terreno feito, e públicos cada vez mais fiéis à nossa presença, surgiram um jardim de Infância, as instituições Sénior e o Centro de Apoio Social do Pisão.

Atualmente, Ana Rita Dias desenvolve sessões de música nas unidades de internamento do Centro e a curta-metragem Paisagens Humanas, Movimentos Sonoros consiste na documentação das mesmas.